terça-feira, 22 de junho de 2010

BRIGAS ENTRE IRMÃOS

Ingeborg Bornholdt


* Briga entre irmãos é saudável? Até que ponto a briga entre irmãos é saudável? É normal que todos os irmãos briguem? O que essas brigas significam? Sim, a briga entre irmãos é normal e saudável, desde que esta venha entremeada de períodos de relacionamento amistoso, de companheirismo e de convívio prazeroso como, por exemplo, no brinquedo compartilhado. Cada criança nasce e inicialmente necessita de atendimento total de seus pais para sobreviver. Assim, ela se constrói emocionalmente percebendo a mãe como uma posse sua. Também concebe a si mesma como sendo o centro da vida da mãe. Um irmão, seja ele maior ou menor, não só ameaça esta percepção e desejo como causa profundos rancores e ódios. A família é o lugar que abriga todos os sentimentos, tanto os amorosos quanto os hostis. Assim, ela abriga as lealdades, deslealdades, rivalidades, solidariedade, competições, exercícios do poder, experimentação do amor, amizade, admiração, inveja, ciúme, agressividade, etc. O ciúme é normal e saudável, pois decorre do fato de que as crianças amam. Qualquer coisa que absorva o tempo e a atenção da mãe, do pai ou outros cuidadores, como, por exemplo, a existência de um irmão, pode provocar ciúmes. O termo rivalidade provém do latim rivalis e significa ter direito à mesma corrente de água: há uma luta constante pelo reasseguramento da água. A criança pode reagir brigando, gritando, dando pontapés, regredindo, enfim, criando confusão. Brigar possibilita à criança vivenciar sua agressividade de forma não destrutiva. Nisto, a família exerce uma função de auxiliar a criança a processar seus sentimentos. * O que os pais fazem (atitudes, comportamentos e comentários) que pode influenciar na briga, ainda que inconscientemente? A postura dos pais frente a uma briga dos filhos pode causar ressentimentos e mágoas? De que tipo, por exemplo? Achar-se preterido pelos pais em relação ao irmão é uma das causas mais comuns das brigas? O nascimento de um filho reedita antigos sentimentos inconscientes nos pais. Assim, por exemplo, um pai com sentimentos não resolvidos com sua irmã, pode, ao interferir na briga com seus filhos, tomar inconscientemente um partido que não condiz com aquela situação de agora. Poderá então, favorecer e proteger um em detrimento do outro, representando um acerto de contas com aquela irmã. Pais que se desesperam e assustam com a agressividade do filho fornecem a este uma impressão de muito perigo. A sensação de perigo estimula na criança a agressividade, como defesa, e pode assim criar-se um sistema de retroalimentação, com o qual o brigar pode ir tornando-se cada vez mais violento, contribuindo para que a criança construa uma imagem de si mesma como muito perigosa. A fragilidade emocional dos pais, desta forma, causa insegurança no filho. Em suma, o adulto maduro, com sua tolerência e capacidade de não desespero, auxilia a criança a encontrar seus limites. * A diferença de idade entre os irmãos influi nas brigas? Por exemplo, quanto maior a diferença de idade entre eles maior a chance de desavenças, já que os interesses de ambos são diferentes? As brigas acompanham o relacionamento entre irmãos habitualmente. Quando há uma diferença de idade importante, as formas de briga variam. O conflito fraterno, que é uma relação horizontal entre irmãos, tende a acionar um outro conflito, simultaneamente, que é vertical: o conflito edípico com os pais. Assim, se estabelece uma rede de ansiedades, conflitos e brigas que tem o significado: - "quem é o escolhido?", "quem é o excluído', "quem é o rival?", "quem leva vantagens?, "quem ganhou?". Aos olhos de uma criança, o irmão geralmente significa o privilegiado, no qual ela deve "ficar de olho". Nas histórias infantis, os enredos de rivalidade e disputa são temas sempre presentes. Lembremos, por exemplo, "O Rei Leão", "A Cinderela", "Os Três Porquinhos"... Também surgem muitos exemplos destes conflitos nas manifestações diretas das crianças, como, por exemplo, uma criança que repetia as palavras da mãe referindo-se a ela como o "alinhavo", ao irmão mais velho como o "bordado" e ao irmão do meio como o "costurado". Ou aquelas crianças que dizem aos irmãos: -"tu foste encontrado na lata do lixo"; -"sabia que a mãe te adotou e só não te contou?", -"sabias que tu é a ovelha negra?". * Que complicações uma relação conturbada com um irmão pode trazer à criança ou ao adolescente no futuro? Irmãos que não tiveram uma relação saudável durante um longo tempo podem recuperar isso no futuro? Depois de adultos, por exemplo? Tanto a criança, quanto o adolescente ou mesmo o adulto pode transpor as várias esferas da sociedade - escola, amigos, namoros, clubes, ambientes de trabalho, instituições ou mesmo nações - seus conflitos fraternos não resolvidos. Nestes ambientes, podem surgir modelos que se tornem padrões de comportamento, como submissão, triunfo, desvalorização... Todavia, do ponto de vista emocional, sempre é possível haver mudanças, elaborações, revisões que levam ao crescimento. Vale a pena lembrar que aprender a brigar e fazer as pazes, discriminando as brigas que valem a pena das desnecessárias, é uma valiosa conquista. Portanto, as brigas fraternas podem ter um sentido estruturante. Material preparado por Ingeborg Bornholdt, Alda R. D. de Oliveira, Maria de Fátima Freitas, Eliane Goldstein e Nazur Aragonez de Vasconcellos - membros da Comissão da Diretoria da Infância e Adolescência da SPPA e utilizado como fonte de pesquisa para a reportagem de Zero Hora- caderno Meu filho, de 30 de agosto de 2004.




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